Tradições, Rituais e Superstições: Os Ditados que Nasceram no Folclore e na Religiosidade Popular
Como as procissões coloniais, o sincretismo afro-brasileiro e os ritos de fé forjaram expressões que atravessaram os séculos.
O sincretismo religioso e as festas populares brasileiras são celeiros inesgotáveis de sabedoria popular. Rituais processionais, festividades do ciclo carnavalesco e lendas bíblicas adaptadas pelo imaginário caboclo deram forma a dezenas de expressões presentes em nossas conversas diárias.
1. A Proteção do Samba Antigo: "Rodar a Baiana"
No início do século XX, os primeiros desfiles de blocos e cordões de Carnaval no Rio de Janeiro eram marcados por frequentes conflitos com a polícia e com arruaceiros rivais. As senhoras respeitáveis que desfilavam na Ala das Baianas eram alvos recorrentes de beliscões e abusos de homens mal-intencionados na multidão.
Para proteger as matriarcas, mestres de capoeira habilidosos passaram a desfilar vestidos com as saias rodadas, turbantes e panos da Costa típicos das baianas. Quando algum engraçadinho se aproximava para desrespeitá-las, o capoeirista disfarçado executava um giro rápido e desferia um rabo-de-arraia ou uma rasteira devastadora. Dizia-se então que ele havia "rodado a baiana". Com os anos, o termo passou a significar uma reação enérgica, escandalosa e incontestável contra um desaforo.
2. O Castigo Eterno: "Onde Judas Perdeu as Botas"
Após trair Jesus Cristo por trinta moedas de prata, o apóstolo Judas Iscariotes, tomado pelo remorso, teria tirado a própria vida enforcando-se. A tradição oral cristã e o folclore ibérico acrescentaram um detalhe pitoresco à lenda: Judas teria sido sepultado sem sapatos, e suas botas teriam sido jogadas em um local deserto, ermo e inacessível pelo próprio diabo.
Na versão brasileira, o causo ganhou ares de geografia sertaneja. Quando alguém precisa viajar para um lugar extremamente distante, isolado, de acesso difícil ou sem sinalização, diz-se popularmente que o destino fica "onde Judas perdeu as botas".
3. A Anatomia da Coragem: "Fazer das Tripas Coração"
Esta expressão remonta à Idade Média ibérica e à medicina galênica antiga, que considerava o coração a sede exclusiva das emoções nobres, da coragem e do afeto, enquanto as vísceras abdominais (as "tripas") eram tidas como órgãos de natureza puramente física e impura.
Quando um guerreiro ou trabalhador enfrentava uma situação de extrema fraqueza, dor ou desespero, dizia-se que ele precisava mobilizar todas as suas entranhas biológicas para convertê-las em energia vital e bravura cardíaca. Hoje, "fazer das tripas coração" representa o esforço monumental e estoico para superar adversidades mesmo sem forças.
Fontes de Pesquisa Folclórica:
- VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. Rio de Janeiro: Zahar / Ed. UFRJ, 1995.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Global, 2012.
- SODRÉ, Muniz. Samba, o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
Carlos Eduardo Menezes
Linguista e Pesquisador de Tradições Orais. Especialista em pesquisas documentais, etimologia da língua portuguesa e patrimônio imaterial brasileiro.