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Linguística & História Medieval

Por Que Dizemos "Segunda-Feira"? O Mistério de Como o Português Virou a Única Língua a Mudar os Dias da Semana

Enquanto o espanhol tem "Lunes", o francês "Lundi" e o inglês "Monday" em honra à Lua e aos deuses romanos, o português baniu os nomes pagãos do calendário. Conheça o bispo e o concílio de 563 d.C. que mudaram a nossa fala.

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Dra. Sofia Filologia Personagem Fictícia • Mestra em Filologia Românica e História Medieval
09/09/2026 8 min de leitura
Por Que Dizemos "Segunda-Feira"? O Mistério de Como o Português Virou a Única Língua a Mudar os Dias da Semana
O Concílio de Braga no século VI e a cruzada linguística que criou o calendário único da língua portuguesa.
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Se você já estudou espanhol, francês, italiano ou mesmo inglês, certamente notou uma curiosidade desconcertante: em praticamente todas essas línguas, os nomes dos dias da semana são surpreendentemente parecidos entre si, mas completamente diferentes do português.

Enquanto um espanhol diz Lunes, um francês diz Lundi, um italiano Lunedì e um britânico Monday — todos fazendo referência direta à Lua —, o falante de língua portuguesa diz calmamente "segunda-feira". Por que somos a única grande nação ocidental a contar os dias úteis em números ordinais acompanhados pela palavra "feira"? A resposta para esse enigma não está na economia nem na burocracia moderna, mas em uma decisão religiosa tomada há quase 1.500 anos no norte de Portugal.

1. O Calendário Pagão do Império Romano

Para compreender a revolução do português, precisamos voltar à Roma Antiga. Os astrônomos e sacerdotes romanos batizaram os sete dias do ciclo semanal em homenagem aos sete corpos celestes visíveis a olho nu, associando cada um à sua respectiva divindade mitológica:

  • Dies Lunae: Dia da Lua (segunda-feira) → gerou Lunes (espanhol), Lundi (francês), Lunedì (italiano) e Monday (inglês, Moon's day).
  • Dies Martis: Dia de Marte, deus da guerra → gerou Martes, Mardi, Martedì.
  • Dies Mercurii: Dia de Mercúrio, mensageiro dos deuses → gerou Miércoles, Mercredi, Mercoledì.
  • Dies Iovis: Dia de Júpiter, pai dos deuses → gerou Jueves, Jeudi, Giovedì.
  • Dies Veneris: Dia de Vênus, deusa do amor e da beleza → gerou Viernes, Vendredi, Venerdì.
  • Dies Saturni: Dia de Saturno → gerou Saturday em inglês.
  • Dies Solis: Dia do Sol → gerou Sunday em inglês e Sonntag em alemão.

Com a expansão do Império Romano por toda a Europa, essa nomenclatura astral pagã enraizou-se tão profundamente na cultura dos povos conquistados que sobreviveu à própria queda de Roma.

2. O Bispo Inconformado: São Martinho de Dume (520–580 d.C.)

No século VI, a região onde hoje se localiza o norte de Portugal e a Galícia formava o próspero Reino dos Suevos. O líder espiritual daquela diocese era o bispo Martinho de Dume (também conhecido como São Martinho de Braga), um dos homens mais cultos, influentes e rigorosos da Igreja na Idade Média inicial.

Martinho considerava uma aberração moral que homens e mulheres batizados na fé cristã continuassem invocando deuses do paganismo greco-romano todos os dias. Em seus sermões mais enérgicos, como o tratado De Correctione Rusticorum ("Sobre a Correção dos Rústicos"), o bispo desabafava indignado:

"Nenhum cristão deve dar nomes de demônios aos dias da semana. Não se deve dizer o Dia de Marte, nem o Dia de Mercúrio, nem o Dia de Júpiter, nem o Dia de Vênus, pois esses deuses não passam de homens perversos e pecadores que morreram e agora ardem no inferno!"

3. De Onde Veio a Palavra "Feira"?

Para extinguir de vez a memória pagã, Martinho de Dume propôs uma alternativa inspirada na liturgia da Semana Santa. Na tradição da Igreja Católica Latina, os dias da Semana que antecede a Páscoa eram considerados dias santos de recolhimento e oração, chamados em latim de feriae (singular feria), que significa "dia de descanso sagrado" ou "dia consagrado a Deus".

Na liturgia pascal, os dias eram ordenados de forma purificada:

  • O domingo, dia da ressurreição, era a Prima Feria ou Dies Dominicus ("Dia do Senhor", origem do nosso Domingo).
  • O dia seguinte era a Secunda Feria ("Segunda-feira").
  • Depois vinham a Tertia Feria ("Terça-feira"), Quarta Feria ("Quarta-feira"), Quinta Feria ("Quinta-feira") e Sexta Feria ("Sexta-feira").
  • O último dia mantinha o nome hebraico bíblico Sabbath (dia do repouso sagrado da Criação em Gênesis, de onde nasceu a palavra Sábado).

4. O Concílio de Braga (563 d.C.) e o Triunfo Popular

No histórico Primeiro Concílio de Braga, realizado no ano de 563 d.C., São Martinho de Dume conseguiu que os bispos e o rei suevo Teodomiro aprovassem oficialmente o uso litúrgico dos dias numéricos. A princípio, a determinação eclesiástica deveria valer apenas durante a Semana Santa.

Contudo, a autoridade moral e catequética de Martinho de Dume foi tão avassaladora entre o clero paroquial do norte de Portugal que os sacerdotes começaram a ensinar os números às populações rurais durante o ano inteiro. Quando o Condado Portucalense se autonomizou e, em 1139, D. Afonso Henriques fundou o Reino de Portugal, a nomenclatura das "feiras" já havia sido totalmente assimilada pela fala do povo, tornando-se a marca registrada da nascente língua portuguesa.

5. Por Que os Outros Países Não Fizeram o Mesmo?

Em países como Espanha, França e Itália, a Igreja de Roma tentou impor a mesma reforma no latim eclesiástico oficial do Vaticano, mas a língua vulgar das ruas resistiu tenazmente. Os comerciantes, juristas e camponeses desses países continuaram utilizando os termos pagãos consagrados pelo uso civil secular. Apenas em Portugal a reforma litúrgica conseguiu descer dos altares e conquistar o vocabulário diário das feiras livres, ruas e lares.

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Sobre o Autor • Personagem Fictício Editorial

Dra. Sofia Filologia

Personagem Fictícia • Mestra em Filologia Românica e História Medieval. Persona fictícia criada pela equipe editorial para guiar os leitores pelas curiosidades históricas, folclóricas e etimológicas da língua portuguesa.

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