Fazer das tripas coração
"Fazer um esforço monumental e sobre-humano para superar a dor, o esgotamento, o medo e as limitações físicas para atingir um objetivo."
Origem Histórica e De Onde Surgiu
A locução tem raízes profundas na medicina hipocrática e na teologia escolástica medieval da Europa dos séculos XIII e XIV.
Na anatomia filosófica medieval (influenciada por Aristóteles e Galeno):
• O coração era considerado o órgão nobre por excelência, a sede espiritual da coragem, da vontade nobre, da fé e da força vital da alma.
• Por outro lado, as tripas e vísceras representavam a parte inferior, carnal e animal do ser humano — a sede dos instintos rasteiros, do medo biológico e das dores de estômago causadas pelo pavor.
• Quando um guerreiro no campo de batalha ou um camponês na lavoura estava completamente ferido, exausto, aterrorizado e à beira do desfalecimento físico, ele precisava buscar forças no fundo das suas vísceras inferiores (as tripas) e convertê-las em coragem e ânimo moral (coração).
"Fazer das tripas coração" significava transmutar a fraqueza carnal em bravura heroica para não sucumbir diante da adversidade.
Como e Quando Usar no Dia a Dia
Empregada para elogiar mães solo, atletas em finais de campeonato, estudantes sob pressão e trabalhadores que superam limites para cumprir metas.
Diálogo 1:
— A mãe fez das tripas coração para trabalhar em dois empregos e pagar a faculdade de medicina dos dois filhos.
Diálogo 2:
— O maratonista estava com cãibras severas nos últimos quilômetros, mas fez das tripas coração e cruzou a linha de chegada.
Curiosidades e Variações Culturais
• A Coragem na Etimologia: A própria palavra "coragem" deriva do latim *coraticum*, que tem como raiz *cor, cordis* (coração).
• Equivalentes no Mundo: Em espanhol: "Hacer de tripas corazón". Em francês: "Prendre son courage à deux mains" (pegar a coragem com as duas mãos). Em inglês: "Bite the bullet" (morder a bala) ou "Pluck up one's courage".
Fontes Históricas & Obras de Referência Consultadas:
- CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções Tradicionais no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1986.
- ARISTÓTELES. De Anima (Da Alma). Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2014.
- HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
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