Passar a perna
"Enganar, trair, ludibriar ou aplicar um golpe desleal em alguém para obter vantagem indevida."
Origem Histórica e De Onde Surgiu
Esta expressão tem sua origem corporal e marcial na Capoeira, arte marcial e dança acrobática desenvolvida pelos escravizados africanos no Brasil a partir do século XVII (com especial florescimento nas ruas de Salvador e do Rio de Janeiro no século XIX).
Na mecânica dos movimentos da capoeira:
• A capoeira caracteriza-se por golpes ágeis desferidos com os pés, calcanhares e pernas, frequentemente disfarçados de movimentos de dança e ginga para despistar o oponente.
• Um dos golpes mais tradicionais de desequilíbrio é a rasteira (e suas variantes como a banda e a tesoura): o capoeirista finge recuar e, em um movimento relâmpago, passa a sua perna por trás do tornozelo do adversário que está com o peso apoiado no chão, puxando-o repentinamente.
• Sem apoio, o oponente cai pesadamente de costas no chão antes de perceber a armadilha.
A malandragem e rapidez do golpe físico de desequilibrar o oponente pelas costas foi transposta para o vocabulário popular como sinônimo de aplicar um golpe financeiro ou traição traiçoeira.
Como e Quando Usar no Dia a Dia
Empregada para denunciar estelionatos comerciais, sócios desonestos e puxadas de tapete no trabalho.
Diálogo 1:
— O sócio vendeu as ações da empresa e fugiu com o dinheiro para o exterior; passou a perna em todo mundo!
Diálogo 2:
— Cuidado ao fechar contratos sem ler todas as cláusulas para não deixar ninguém passar a perna em você.
Curiosidades e Variações Culturais
• Puxar o Tapete: Expressão irmã de "passar a perna", ambas evocam a perda repentina da sustentação e estabilidade de quem confiava na firmeza do solo.
• A Capoeira no Código Penal de 1890: Durante a República Velha, a prática de capoeira era punida com prisão e trabalhos forçados no presídio de Fernando de Noronha.
Fontes Históricas & Obras de Referência Consultadas:
- REGO, Waldeloir. Capoeira Angola: Ensaio Socioétnico. Salvador: Editora Itapuã, 1968.
- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Global, 2012.
- HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
Debates e Comentários (0)