Fazer vista grossa
"Fingir deliberadamente que não viu um erro, irregularidade, infração ou crime, permitindo que aconteça sem punição."
Origem Histórica e De Onde Surgiu
A expressão tem sua origem na linguagem alfandegária e jurídica do Brasil Colonial e do Portugal do século XVIII, associada à corrupção e negligência dos fiscais e inspetores da Coroa nos portos de Salvador, Rio de Janeiro e Recife.
Naquela época:
• Os portos coloniais movimentavam mercadorias valiosas sujeitas a pesadas taxas de importação e exportação régia.
• Para passar com fardos de tecidos ingleses finos, bebidas contrabandeadas, especiarias e escravizados sem pagar os impostos devidos, os contrabandistas pagavam vultosas quantias em dinheiro de suborno ("o cala-boca") aos guardas e inspetores da alfândega.
• Ao receber a propina, o inspetor passava pela carga fingindo que sua vista estava "grossa" — como se seus olhos estivessem cobertos por uma catarata turva, névoa ou miopia repentina —, carimbando as guias de liberação sem examinar os caixotes.
Dizer que o fiscal "fez vista grossa" virou a expressão máxima da conivência cúmplice com a ilegalidade.
Como e Quando Usar no Dia a Dia
Empregada para denunciar chefes que ignoram desvios de conduta de funcionários preferidos ou agentes de fiscalização que não multam infratores.
Diálogo 1:
— O supervisor de segurança fez vista grossa para a falta de capacetes na obra e agora a empresa foi multada pelo Ministério do Trabalho.
Diálogo 2:
— Os pais não podem fazer vista grossa para as agressões verbais que o filho comete na escola.
Curiosidades e Variações Culturais
• Fechar os Olhos: Locução sinônima direta de "fazer vista grossa", ambas denotam a recusa voluntária de testemunhar a verdade por conveniência ou covardia moral.
• Equivalentes no Mundo: Em inglês: "To turn a blind eye" (virar o olho cego - associado historicamente ao almirante britânico Horatio Nelson na Batalha de Copenhague em 1801). Em espanhol: "Hacer la vista gorda". Em francês: "Fermer les yeux sur quelque chose".
Fontes Históricas & Obras de Referência Consultadas:
- CASCUDO, Luís da Câmara. Locuções Tradicionais no Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 1986.
- PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense, 2011.
- HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.
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